Resquícios Brutos


Pikape
Abaixo, registros do 7º procedimento obra "Pikape", realizado na Pça. das Artes, 18/05 às 17h, com os artistas convidados Bruno Navarro e Danilo Pêra atuando nas pick ups de discoteca.

Playlist de Vídeos (1/6):



Fotografias:














































Relatos Escritos


São Paulo 21 de Março de 2016.
Avenida Paulista: Vão do MASP. Na calçada. As Vacas. Por Liana Zakia

Nada melhor do que uma boa pisada pra ensinar o caminhar.
Ninguém ensina que devemos andar pra frente. Mas andamos, saímos desde o primeiro passo, rumo ao visto, visível, ao objetivo, objeto, ao chamamento de alguém ou algo que nos espera ansiosamente, para presenciar o passo original, aquele! Sem volta!
Assim, em cócoras ou levemente abaixado para alinhar olhos com olhos há de haver alguém.
Não se saber quando vai se dar mas, sabe-se que, a partir dali, será uma série de muitos, que tendem a transformar em jeito, peso e medida, ao longo de toda uma vida. É um saber, conquistado não por todos, mas por maioria.
Naquele lugar, me pareceu que todos apreenderam o caminhar muito bem. Tarefa cumprida. Tem de muitos tipos, grandes, pequenos, calçados, limpos, sujos, em salto alto, em sapatos fechados e abertos, coloridos ou monocromáticos. Tem os que produzem som, os silenciosos, os que pisam mais pra borda de lá ou de cá. Os com cadarço, elástico, rasgados e até mesmo os elegantes.
São pés. Que ante pés, traçam seus deslocamentos com êxito, sem que nada ou ninguém os bloqueie.
Mas para onde é que estão indo? O trajeto parece certeiro. Não me parecem desviar, ou traçar linhas indecisas. São diretos, firmes, rápidos, indesviáveis...mudam seus rumos somente quando sentem-se ameaçados por mulheres-vacas,  postes, sujeiras ou qualquer outra estranha “coisa”.
Às vezes, quando entro em confusão mental ou emocional, dádiva humana certamente compartilhada por muitos, costumo sair em deslocamento por algum lugar. Gosto principalmente de correr, nos pastos. Parece que a cada pernada dada, o pensamento se organiza, toma rumos mais claros, entra em ordem, ganha oxigênio e vida.
Mas não foi isso que presenciei hoje. Naquele pasto de asfalto, estavam corpos em andamento acelerado. Incrivelmente determinados e focados...na frente. A frente é muito mais importante do que o “atrás”. Já dizem os ditados populares: “é pra frente que se anda”. Ou que, “quem olha pra trás tropeça”. E até associam o atrás com aquilo que passou, o tal do não valorizado passado, ao qual não podemos ficar “presos”!
Então, parece que o negócio é escolher. Ou um ou outro. Nada de ficar no meio do caminho, ou no entorno, andando em linhas curvas que só aumentam a trajetória e consomem o precioso tempo. Afinal, o que seria de nós se começássemos a ver o mundo com todos os sentidos e em todas as direções? Seríamos insuportavelmente flexíveis?
Ouvir com as narinas, olhar com as orelhas, comer com os olhos, degustar com o corpo em suas complexas partes e deixar-se confundir por tudo isso, alternando as experiências, em espirais insanas. Talvez assim pudéssemos ter encontros não planejados, belezas incalculáveis, sensações profundas, ideias revolucionárias...ou ao menos algumas micro surpresas agradáveis.
Mas. Estamos todos bem treinados. Afinal, chegar é o que importa. Ou não é?

"As três graças" por Christiana Sarasidou

Dia sete de Março cerca das cinco horas da tarde. Me tornei parte dela. Ela me recebeu com braços abertos e dormi na sua cama. Ela me protegeu da raiva daquela cabeça presa, me refrescou na sua escada e me fez arrepiar com os seus sinos. Não esperava que ela poderia ser tão acolhedora. Não foi assim que eles a descreveram. Foi com outros cheiros e outras cores. Não usaram nem canela, nem agrião, mas nem hortelã sentiram. Tem sorte quem pode encontrar fogo onde reina a água. É até mais sortudo quem acha a companhia certa para isso, quando consegue inflar o seu ego o deixando pra trás. Quando a sua existência encontra ciclos similares e compõe um grupo que flutua na praça dos sentimentos mais maravilhosos. Na mesma praça onde ontem não cabia nem a tristeza. Hoje estava diferente. Hoje tinha espaço pra nós.


PROCEDIMENTO OBRA II: AS TRÊS GRAÇAS (07/03/2016) Por Karime Nivoloni
PRAÇA DA SÉ Duração 1h30
ARTISTA CONVIDADO: ALCIMAR FRAZÃO

Infundir.
Minar camadas no espaço.
Das raízes simbólicas,
das matrizes ocidentais: evocar as três graças.

Beleza, encanto e abundância;
Aglaia, Eufrosina e Tália;
castidade, beleza e amor;
beleza, desejo e satisfação...

Praça da Sé. Centro de São Paulo. Marco-Zero.
Contradições, incongruências e co-existências.
Olhares, sujeira e concreto.
Suspensão do tempo, dilatação do espaço e pausa dos corpos espectadores.

Igreja, homens e pobreza
desgraças veladas... explicitas... comungadas...
registros celulares, videográficos e vocais.

Questionamentos sonoros atravessam a lentidão que se instaura...
sobre arte, sobre dinheiro, sobre curiosidades.
… depois eu que sou a louca...
e a presença dos olhares que eu vi. Com os meus olhos.
Cravados na memória.
Gravados no papel riscado. Sobreposto. Transparente.

Um olhar que não me é imparcial.
Que me revela, acolhe e afasta.
Simultaneamente. Afetivamente. Profissionalmente.

A pausa ordenada esculpe os corpos,
que criam lacunas no espaço e, das coincidências do mundo,
me colocam segurando duas cabeças na escadaria
enquanto dobram os sinos.

Sinos gravados... mas ainda imponentes.

Dos acasos pré-combinados espiritualmente com as entidades:
a chuva que lava as esculturas, as pessoas e a escadaria.
No final.
Ou de um pai nosso que des-sacraliza nosso rito pagão
de três graças pagas, urbanamente vestidas (como não manda o figurino)
e (eu, falo por mim) atravessada pela tentativa, [quase]
desesperada, de dar algum sentido à.

Experiência, existência... condição.
Do “animal que logo sou”, do sistema engendrado em nosso cerne.
Da poesia das fatalidades.?


“As três graças” por Liana Zakia 
Praça da Sé, Marco Zero, São Paulo. Ano 2016. 7 de março.

Tomada por grande dose de adrenalina me posiciono e apoio as mãos no monumento central, me debruçando sobre o estado do Paraná. O dia está quente e por isso emana da pedra um calor que rapidamente é absorvido pelo meu corpo, na tentativa não tão consciente de, me sentir ali, como parte fundamental da superfície da paisagem. Este meu ato, carregado de uma presença irremediável, reverbera no outro e o afasta de mim, como se, por um instante, eu tomasse seu lugar, fazendo-me maior, em força, presença e tamanho. Junto-me às outras, e clamo ao universo qualquer tipo de proteção. Olho em volta, como quem deseja estar sem ser tão visto, mas já é tarde. A praça está habitada por corpos ávidos pelo encontro. Encontros estes que não se explicam mas se compreendem, nas muitas camadas da relação presentificada pela cumplicidade. Com certa rapidez, como lhe é devido, o frio nas vísceras abdominais se dissipa e o calor da pedra-monumento e dos olhares atentos em busca do encontro me confortam e me permitem abraçar o chão com o corpo. Começo então a enxergar. O céu, as colunas catedráticas, as altas e virtuosas palmeiras, as pequenas e perceptíveis fuligens do chão cinzento, as câmeras dos celulares, do tripé, os detalhes, os pés, as pessoas. No entorno, uma energia circular. Algo parecido com aquilo que reconheço como platéia mas, esta, em particular, se encarrega de contemplar e proteger. E assim, me dou conta de que não somos apenas três. Somos muitos. O outro, que de longe nos observa, ainda não se faz visível. Aquele, que tenta a todo custo conquistar visibilidade, não têm êxito e é convidado pelas forças atuantes no “nós”, a se distanciar e abandonar sua voz. Encontro mundos diversos. Converso em um recorte de tempo, com a voz do corpo e dos olhos, gracejando o outro em sua-minha intimidade nublada, em meio aos fios de cabelo que nudam e desnudam meus olhos físicos. E quando sopra o vento mais forte, vejo que já é outro. Outro rosto, outro traje, outra postura, outra atenção, outra busca, outra pergunta, outra presença. Mas o outro, é homem. Só. Apenas. Muitos. A cada gesto e postura criamos juntos uma infinita rede de sentidos. Alguém se pergunta, em silêncio absoluto, o que aquilo quer dizer. E quer dizer? Preciso dizer? Há uma sentença? Acontece que olhando pra ti também vejo apenas perguntas e gostaria muito de poder lhe conceder muitas respostas, se permitir que carreguem em si, a potência das interrogações. A única voz que de fato é dita, imperativa e clara, carregada de intenção, é a voz dele. Nos pede a pausa, em variadas intensidades. A voz, às vezes demora a chegar no corpo, ou talvez, o corpo é que demore a querer escutá-la. Mas acontece e a praça pausa. Nós, os outros, o barulho, os olhares. Simplesmente pausam. Quando reaparece, a voz nos orquestra rumo ao movimento e, aquele outro, antes tímido, é atravessado pelo desejo de brincar, de interferir, de se aproximar, de nos confundir. Talvez tenha encontrado um sentido do estar. Enquanto as escadarias se aproximam, ou, enquanto nos movemos sentido à escadaria, o céu nubla, já que havíamos feito um tratado de antemão, por água leve chovendo no rosto. Calma. Ainda não é hora. Voltem e fiquem perto do poste. Gosta de desenhar sobre o traçado daquela arquitetura. Atravessem apenas quando o sino estiver para soar. E toca. Bate. Não sei como se diz. Sei que ao tocar, vibra o concreto-pedra da escadaria e elas dançam embaixo de nossos pés, causando-me arrepios de baixo pra cima e culminando em um desejo não pré-meditado ou ensaiado de fechar os olhos e sentir meu corpo por dentro. E naquele momento, me torno som, vibração e força e avançando com segurança alguns degraus, ela vem. A única que evocamos. Ela, com sua delicadeza e graça. Amém. Está chegada a hora de rezar o Pai Nosso.



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